quinta-feira, 19 de novembro de 2009

OS AZARES DE UM SORTUDO

O senhor Hilário, num golpe de sorte, ganhou um caminhão Scânia num sorteio realizado por um posto de gasolina, foi uma festa só. Ele que era motorista de táxi, agora tinha a chance de se tornar motorista de uma carreta, sonho que acalentava desde de criança, além de tudo, poderia melhorar de vida, pensou:
- Farei viagens e mais viagens, farei carretos por esse Brasil afora, vou sair dessa vidinha, conhecer lugares maravilhosos! Que sorte a minha!
Depois de regularizar a documentação da carreta, iniciou sua tão sonhada vida de caminhoneiro, estava muito orgulhoso.
Na sua segunda viagem, quando atravessava a linha de trem que cruza a rodovia, por descuido, não viu o sinal de alerta, e o som do rádio não o deixou ouvir o apito do trem, o choque foi fatal, a carreta ficou retorcida. Hilário, com várias escoriações, acompanhou o reboque que levou a carreta ao amigo Valdemar, seu mecânico de confiança. Qual não foi a surpresa quando o mecânico disse:
- Não vai ser possível consertar sua carreta, posso fazer dela um caminhão menor.
Hilário ficou indignado, esbravejou, resmungou, mas não teve opção, aceitou a proposta.
Uma semana depois o seu caminhão já estava pronto, imediatamente ele começou refazer seus planos:
- Bem, continuarei a fazer fretes, agora vou levar cargas menores, e tudo bem.
E assim ele seguiu o traçado, tudo estava indo muito bem até que num dia chuvoso, seu caminhão derrapou e foi parar na outra pista e capotou duas vezes, parou com as rodas para cima. Hilário teve muita sorte, saiu com apenas alguns arranhões, mas seu caminhão ficou num estado lastimável. Novamente foi rebocado ao mecânico que, depois de analisá-lo, chegou à conclusão:
- Não é possível reformar o caminhão, posso fazer um caminhão três quartos.
Hilário novamente entrou em desespero, esbravejou, socou o ar, andou de lá para cá, não adiantou, acabou aceitando.
Quinze dias depois o caminhão três quartos já estava pronto e Hilário voltou a fazer planos:
- Bem, agora vou fazer pequenos carretos, viajarei menos, ficarei mais com minha família e tudo bem.
Tudo começou a correr como o planejado, Hilário estava, na medida do possível, contente, mas a fatalidade voltou a freqüentar a cabina de seu caminhão. Numa curva da estrada, um caminhão vinha fazendo uma ultrapassagem irregular e chocou de frente. Novamente a sorte estava do lado do Hilário, ele saiu com algumas fraturas, mas seu caminhão...
- É com tristeza que eu lhe informo: não será mais possível fazer um caminhão três quartos. – Diz o mecânico. - Posso fazer uma caminhonete
- O quê? Você está me gozando, diga que está!
- O pior é que não estou!
O sangue ferveu e Hilário já ia fazer um escândalo, sentou, respirou fundo e preferiu calar-se.
Doze dias depois da entrada na oficina a caminhonete estava pronta, Hilário voltou a fazer planos:
- Bem, agora estarei definitivamente, mais próximo da minha família, farei apenas carretos nos limites do município e tudo bem.
Tudo corria dentro do planejado, Hilário levava uma vida tranqüila, mas o destino pregou mais uma das suas, numa tarde, depois de sair de um bar e de ter tomado alguns goles a mais, um poste veio violentamente ao seu encontro, novamente sua vida estava salva, mas sua caminhonete não tivera a mesma sorte. Na oficina mecânica:
- Seu Hilário, não vai mais ser possível refazer sua caminhonete.
- Como não!?
- É o que eu disse, posso fazer apenas um fusquinha. – Essa foi a gota d’água.
- Agora você exagerou! Eu tinha uma carreta e vou terminar num fusquinha! É demais .
Hilário falou, reclamou, esbravejou... resultado, dez dias depois o fusquinha estava pronto. Quando foi retirar seu carro Hilário estava um tanto desanimado, mas tinha que continuar a vida e logo iniciou novos planos:
- Bem, agora terei uma vida mais tranqüila, voltarei a trabalhar como taxista e, aos finais de semana, irei passear com a família e tudo bem.
Foi o que aconteceu, tudo estava indo muito bem, mas num certo final de semana saiu com a família, foi pescar num rio próximo à cidade; quando voltava do passeio, o carro deslizou no cascalho da estrada e rolou barranco abaixo indo parar dentro do rio. Novamente Hilário sai com poucos arranhões, mas dessa vez o destino foi mais duro, a mulher e o filho não tiveram a mesma sorte, morreram. O fusquinha também foi outra vítima fatal.
Lá estava novamente, Hilário, o fusca arrebentado e o mecânico:
- É seu Hilário, o estrago foi grande, só vou poder fazer uma motocicleta.
O pobre Hilário estava tão desconsolado que não teve força nem de brigar, só balançou a cabeça concordando.
Oito dias depois a moto estava pronta, Hilário traça novos planos:
- Bem, já que o destino quis assim, agora serei um rebelde, a cidade acaba de ganhar mais um motoqueiro, não tenho outras preocupações, minha vida será uma eterna aventura e tudo bem.
Quase foi, não fosse um sinal fechado que Hilário teimou em cruzar, um ônibus não conseguiu frear a tempo, resultado, ele internado com várias fraturas e a moto levada ao mecânico por uma caminhonete.
Quando Hilário saiu do hospital, foi direto à oficina mecânica e lá recebeu a notícia:
- Já vou alertando, moto não dá mais para fazer, posso fazer uma bicicleta.
- Bicicleta? Bicicleta!... Você está brincando comigo, diga que está!
- Não estou, digo novamente, só posso fazer uma bicicleta.
Agora Hilário estava realmente bravo, chamou o mecânico de incompetente e saiu resmungando. Como podia uma carreta acabar em uma bicicleta. Dois dias depois voltou e já foi perguntando:
- Bicicleta!?
- Bicicleta.
- Tá bom, então faz.
Quatro dias depois a bicicleta estava pronta, Hilário fez novos planos:
- Bem, já não tenho mais nada mesmo, pelo menos vou economizar gasolina e fazer exercício, e tudo bem.
Num belo dia de sol, quando estava saindo de casa, com o pensamento distante, não percebeu uma carreta que se aproximava velozmente, pimba! Hilário foi jogado longe, a roda da carreta passou sobre a bicicleta. Hilário sofreu pequenas escoriações, já a bicicleta perda total.
- Olha seu Hilário, já vou adiantando, só posso fazer uma espingarda com sua bicicleta.
Hilário desatou a rir e não parava mais, o mecânico já estava até preocupado, o homem enlouquecera de vez:
- O senhor não está se sentindo bem!?
- Estou rindo de raiva, isso é raiva. – E continuou rindo.
Três dias depois já estava saindo com sua espingarda e começou a renovar todos os seus planos e, diga-se de passagem, muito a contra gosto:
- Bem, agora vou para o meio do mato e vou viver caçando, não quero mais nem ver cidade grande, vou viver de caças e tudo bem.
E assim ele fez, foi viver no meio do mato, mas a espingarda não estava encaixando direito, quando foi dar o primeiro tiro - a fatalidade - a espingarda estava inteira, mas o cartucho ao invés de sair para frente voltou e acertou a testa do pobre Hilário.
Moral da história: “Não faça do seu veículo uma arma, a vitima pode ser você”.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

AO ANOITECER

Um jovem casal passava férias com seus dois filhos, escolheram, por recomendações de amigos, uma pousada cercada de montanhas com um rio cortando-as e que ficava a pouco mais de duzentos metros da pousada, além de uma linda cachoeira que descia de um dos lados da montanha, muitos coqueiros e palmeiras completavam aquela paisagem belíssima.
No segundo dia de estada naquele paraíso, Lincoln caminhava vagarosamente pelo verde gramado próximo aos alojamentos da pousada, começava anoitecer, o Sol muito vermelho sumia, engolido pelo horizonte, as multicores do céu davam mais beleza aquela paisagem. Passando defronte a capela que fica dentro da área que compunha a pousada, Lincoln sentiu um forte desejo de entrar um pouco, a capela sem portas estava permanentemente aberta, convidando os freqüentadores do local a agradecer o Criador por ter feito um lugar tão bonito.
Lincoln estava sentado com os olhos fechados quando ouviu passos vagarosos, alguém adentrava ao santuário, logo um leve arrastar de banco e tudo ficou quieto, Lincoln abriu os olhos, virou-se e notou ser um senhor com mais ou menos setenta anos e já se encontrava orando, ficaram assim durante alguns minutos. Após suas orações o velho levantou-se do banco onde estava e veio sentar exatamente no banco onde o Lincoln se encontrava:
- Estou incomodando?
- Ah! Não, não está, já terminei minhas orações. – A princípio Lincoln estranhou a vinda daquele senhor ao seu banco, pois haviam tantos outros desocupados.
- Vem sempre aqui?
- Não, é a primeira vez. E o senhor vem sempre?
- Vinha mais, hoje em dia dependo muito de quando minha filha pode vir, ela trabalha muito, dificilmente tem tempo!
- Só tem ela!
- Não, tenho mais dois filhos, dois rapazes, mas não moram no Brasil, se formaram e foram trabalham no exterior.
- Muitas lembranças?
- Muitas meu filho... – O velho dá uma pausa – muitas mesmo!
- Boas ou ruins?
- Boas, todas muito boas! Inclusive, ontem e hoje estive observando sua família e lembrei da minha, você tem dois filhos e uma bela esposa.
- É, tenho um filho de sete anos e uma filha de quatro.
- E a esposa!
- Ah! É, minha esposa... estamos casados a nove anos.
- Algo não está bem entre vocês?
- Está tudo bem sim – pausa - porque o senhor pergunta?
- É que eu estive observando a movimentação nesses dois dias, é o que um velho pode fazer de melhor, observar, e não pude deixar de notar que vocês estão sempre distantes.
Primeiro Lincoln ficou meio constrangido por falar de sua intimidade, mas aquele senhor transmitia tanta paz e segurança que resolveu se abrir:
- Nosso relacionamento esfriou muito! Nós viemos para cá tentando nos dar uma chance, mas percebo que não dá mais não...
- Isso é muito triste, o fim de um amor é triste... – O velho falou pausadamente e calou-se.
- É realmente, eu amei muito minha mulher, mas de alguns anos para cá, nós nos afastamos, a rotina no casamento, a correria do dia-a-dia: trabalho, cursos, filhos, viagens a negócio, encontros com amigos; ela também trabalha fora, está tudo muito difícil – Lincoln abaixa um pouco a cabeça e completa – tem também outras mulheres... – cala-se.
- É, quando o amor é bonito vale a pena investir, vale qualquer sacrifício.
- O Senhor fala com muita convicção. Chegou a viver problemas no seu casamento?
- Claro que sim. Eu me casei muito apaixonado, minha esposa era maravilhosa, tão bela quanto a sua, a gente se entendia muito bem, tivemos três maravilhosos filhos, com o tempo ela se tornou apenas mãe e eu pai, nossos diálogos foram reduzidos a problemas caseiros: filhos, escola, contas, daí em diante tudo desandou, eu que nunca havia traído minha esposa, não resisti aos encantos de uma colega de trabalho, e assim foi durante algum tempo. Um dia cheguei em casa depois do barzinho com os amigos, minha esposa me comunicou que iria fazer uma viagem com as crianças e que iria ficar um tempo sozinha para pensar sobre nós, nesse dia eu percebi que estava perdendo minha família e a mulher que tanto amara. Fiquei entre deixá-la partir e assumir a outra em definitivo, mas algo dentro do meu coração pedia uma nova oportunidade, era mais forte que a minha razão, foi então que pedi que me desse mais uma chance, sugeri que fizéssemos uma viagem juntos, ficando só nossa família e, se depois de tudo se ela achasse que devia partir eu não impediria. Á princípio ela relutou, dizia já ter tentado de tudo e que já havia tomado a decisão, nesse momento eu percebi que estava perdendo a chance de ser realmente feliz, resolvi que despojaria de qualquer orgulho e implorei, pois sabia que quem mais errara havia sido eu. Ela aceitou e nós viemos para este lugar, na época ainda era uma propriedade de um amigo, era tudo muito rústico, ficamos só nós, durante o dia íamos ao rio pescar, passeávamos a cavalo, tomávamos banho de cachoeira, fazíamos caminhadas, jogávamos bola, à noite jantávamos, acendíamos uma fogueira no terreiro da casa ficávamos inventando jogos e contando histórias. Via meus filhos correndo alegres e a alegria dos meus filhos e o belo sorriso da minha esposa me davam a certeza de que havia tomado a decisão certa. Resolvi investir em nós, conversamos muito, falei tudo o que eu não gostava e o que me deixava chateado, ela por sua vez também não deixou barato, fiquei sabendo tudo o que ela pensava sobre mim, percebi o quanto havia machucado-a, o quanto machista fora, foi tudo muito bom. Quando voltamos para casa nosso relacionamento mudou muito, estávamos mais unidos, mais fortes... – o velho dá uma pausa.
Lincoln se identifica muito com a história e resolve saber mais:
- E quanto à outra?
- Percebi que não a amava verdadeiramente, ela era apenas uma fuga, eu buscava a jovem que eu conhecera e que se tornara mais mãe que esposa, talvez mais por uma visão minha.
- E a relação de vocês com este lugar foi só naquela vez? Lincoln, na realidade estava usando essa pergunta para saber mais sobre a história do velho.
- Bem, depois daquela vez passamos a vir aqui com mais freqüência – nesse momento o velho pára, vira o corpo e fita o vazio lá fora – quando começo a pensar naquela época posso ver meus filhos correndo de um lado para o outro, os jogos de futebol, as pescarias, como éramos felizes, as idas à cidadezinha próxima daqui, as cantorias acompanhadas pelo violão tocado pela minha esposa. Ainda posso vê-la dando bronca nas crianças e dizendo que eu era tão moleque quanto eles – o velho abaixa a cabeça - ela era muito zelosa, dava broncas e ao mesmo tempo era carinhosa. Percebi a tempo que ela não precisava só de um bom pai para nossos filhos, precisava também de um marido, amante, um companheiro; e olha que isso nós fomos, como fomos! Envelhecemos juntos, vimos as crianças crescendo, primeiro o mais velho foi fazer faculdade na capital, logo o outro ganhou um bolsa de estudo no exterior e também foi embora, apenas minha caçula ficou, fez medicina, ficou na cidade morando e trabalhando. No final ficamos apenas eu e minha esposa, os filhos pouco nos acompanhava nas viagens, mas mesmo a saudade deles não nos impedia de sermos felizes, mas... - Nesse instante Lincoln percebe que uma lágrima teima em rolar pela face do velho.
- Prefere não falar!
- Não, não, eu falo, as lágrimas são de boas lembranças, como estava falando, há seis anos minha amada me deixou – o velho curva a fronte enquanto as lágrimas escorrem pelo seu rosto – ela foi atender o chamado do criador, doeu e ainda dói, mas eu sei que ela está me esperando para nunca mais nos separarmos. Hoje eu venho para este lugar com minha filha, ela vem com sua família e, sabendo que eu gosto muito sempre me convida, quanto aos outros filhos pouco aparecem, estão sempre muito ocupados.
- O senhor considera que tudo valeu a pena?
- Se valeu! Hoje eu tenho consciência que a vida é feita de detalhes e são eles que irão nos alimentar, nos darão força para continuar vivendo, não sou saudosista, tenho boas lembranças e são elas que me impulsionam. São elas que me dão a certeza que a vida valeu e vale a pena. O que me alimenta não são as coisas que não disse ou que não fiz, mas tudo que tive coragem de dizer e de fazer e que fizeram outras pessoas felizes. A minha amada continua aqui, viva, dentro do meu coração, toda felicidade que eu lhe dei e a que ela me deu dá a certeza que a felicidade existe e está sempre do nosso lado, basta tirarmos o rancor, a magoa, o orgulho, os preconceitos, temos que viver livre das amarras e de modismo, devemos ser verdadeiros, não ter medo de viver e de ser feliz, devemos ser felizes nem que seja na marra.
- Será que eu posso ter uma historia tão bonita quanto à do senhor?
- Com certeza não. Cada um faz sua história e ela pode ser melhor ou pior, mas é a sua historia. – O velho dá uma pausa na conversa - Desculpe-me, vim aqui, atrapalhei suas orações e fiquei falando o tempo todo!
- Não, não está atrapalhando, foi muito bom ter ouvido sua história.
- Bem tenho que ir, minha filha já deve estar me esperando para o jantar, meu genro é impaciente e amanhã levantamos cedo para viajarmos de volta. Os dois se levantam caminham silenciosos até fora da capela.
- Está uma noite muito bonita, uma linda Lua cheia, inspirativa, diria! Bem, vou chegando, boa noite! - Despede-se o velho.
- Boa noite! - Responde um Lincoln contemplativo.
O velho sai caminhando em passos lentos deixando atrás de si um homem pensativo, aquela história havia mexido com Lincoln. Ele ficou ali mais alguns minutos enquanto observava o velho seguir seu caminho sendo iluminado pelo clarão da noite enluarada.
- Boa noite, amor!
- Onde esteve até agora?
- Andando por ai.
- Sozinho!
Lincoln não respondeu, aproveitou que as crianças não estavam por perto, puxou sua esposa para junto de si:
- Eu já disse que te amo muito!?
- O que houve? Há muito tempo que você não age assim!
- Pois então pode ir se acostumando, agora vai ser assim! Lincoln abraçou forte a esposa e deu-lhe um longo e ardente beijo.

domingo, 8 de novembro de 2009

CONFLITO MUSICAL

Doutor Eduardo viajou quatorze horas para buscar seu filho que está residindo na região norte do país, ele não o encontra há mais ou menos quatro anos. Eduardo viu o filho quando ainda tinha onze anos, depois da separação conjugal passou a residir em São Paulo, voltou apenas uma vez para visitá-lo, isso foi no primeiro ano de separação, depois apenas conversava esporadicamente com o filho pelo telefone, mas começou a perceber que as conversas estavam a cada dia mais frias, no ultimo ano a ex-esposa vinha reclamando que o garoto não estava andando em boas companhias e se apresentava bastante rebelde, diante de tudo que ouviu decidiu então que buscaria o filho para passar alguns dias com ele, como a mãe do garoto não fez objeções ele decidiu, juntamente com a nova companheira, que assim seria.
Depois do encontro com o filho, de constatar que o garotinho crescera e estava um rapaz de quinze anos, quase mais alto que ele, alguns pircins no nariz e sobrancelhas, brincos nas orelhas, várias tatuagens pelos braços e roupas extravagantes, achou tudo muito estranho, para não começar mal o encontro, preferiu ficar calado. Em seguida iniciou a viagem de volta, pouco tempo de estrada e um silêncio total. Para quebrar o gelo Eduardo abre uma caixa com CDs e de lá retira um e coloca no cdplay do carro, em seguida faz um comentário:
- Gosta de música?
- Só. – Frase monossilábica denotando aprovação.
- Então vais ouvir um som de qualidade – Começa tocar e o Dr. Eduardo comenta. É John Lennon, ele fez história na música mundial!
Thiago não diz nada parece indiferente a tudo, de repente, enfia a mão na mochila e de lá retira um CD de um grupo de Have Metal, enfia o dedo direto no eject, tira o CD que Eduardo havia colocado com tanta cerimônia e enfia o seu. Eduardo se sentiu ultrajado com a maneira estúpida que aquele rapazola retirou seu CD, mas preferiu calar-se para não criar confusão, afinal, tinha que reconquistar o garoto:
- Saca só coroa, isso é que é som manero! - Um som barulhento parecia querer estourar os tímpanos de Eduardo.
Não aguentando mais, Eduardo retira um outro CD, delicadamente pede desculpas e retira o que estava tocando e coloca o seu:
- Já que você quer falar em rebeldia ouça este – alguns instante tocando e ele comenta – Jhemi Hendrick era demais, tinha um som maravilhoso e era totalmente rebelde - Eduardo nem terminou de falar e Thiago novamente retirou o CD que estava tocando e colocou um outro dos seus:
- Coroa, coroa, você tem que se reciclar está ultrapassado, esses caras aí não são nada, não passam de um bando de velhinhos babões! Pô coroa, cê é careta demais brother!
Eduardo percebeu que o garoto queria tira-lo do sério, segurou-se não queria criar atritos, tinha que se controlar, tentou dialogar com Thiago, mas com o som alto apenas ele falava enquanto o garoto balançava a cabeça acompanhando, adoidamente o ritmo da música. Eduardo perdendo a compostura enfiou o dedo no stop e desligou o som e falou:
- Olha aqui, não quero discutir com você, mas não podemos passar a viagem toda nessa disputa musical, podemos conversar um pouco?
- Qualé veio! Você veio me buscar, estou indo, agora quer o quê? Estabelecer contatos? Vê se me erra, pelo seu gosto musical seu papo deve ser careta pacas!
- Olha aqui garoto vê se me respeita, não esqueça que sou seu pai!
- Depois de se ausentar por tantos anos vem com esse papo de “sou teu pai”, dá um tempo coroa!
- Garoto atrevido, eu... – Eduardo prefere calar-se.
- Taí, já começou! Vai me bater brother! Só falta isso.
Thiago não agüenta o silêncio e para confrontar com o pai retorna o CD Have Metal. Irritado Eduardo não espera muito e aperta o stop, saca o CD joga no colo do garoto em seguida coloca um Milton Nascimento e completa:
- Vamos estabelecer o seguinte, ao menos no carro eu mando e aqui vai tocar o que eu quero, menos esse lixo musical teu. Aplaudindo o garoto saca do fundo do baú um insulto:
- É isso aí cria de ditador, não podia ser diferente, tua formação vem do período da ditadura, não tá negando suas origens né coroa! Que papo típico, “sabe quem manda aqui”? Qualé!
- Olha aqui protótipo de bandido, você já me encheu, e digo mais, coroa é a ... – o palavrão sai bem soletrado. Você com esses brincos, pircins enfiado em tudo que é lugar, essa roupa indecente, esse cabelo imundo está achando que é gente.
Enquanto no Cd play do carro toca Canção da América a discussão continua.
- Se sou protótipo de bandido tem um dedo seu para isso, se minha roupa é imunda e minha aparência é bisonha pelo menos não sou falso, e você, com esse terno fino não passa de um crápula, ou será que acha que é um exemplo a ser seguido!
- Ao menos tenho uma formação que consegui a duras penas, lutando desde de cedo, sendo gente logo na adolescência e não sendo um inútil como você!
- Pra início de conversa, coroa, eu não pedi para vir nessa viagem você que insistiu para limpar sua barra com os amigos almofadinhas, para não continuarem dizendo que o doutor Eduardo todo moralista, abandonou mulher e filho para viver com outra mulher mais nova.
- Mais uma vez, coroa é... e outra, não quero limpar nada, não sei o que sua mãe disse, mas já não nos entendíamos mais e decidi que deveria começar de novo, não pretendia ficar longe, mas..
- Tá achando que vai me convencer com esse papo de advogado de quinta categoria, dá um tempo pra minha cabeça véio...
- Pra ser sincero garoto, você é um saco mesmo, deve ser um estorvo até para sua mãe, talvez por isso que ela te liberou com tanta facilidade!
- Devo ser um estorvo mesmo, só que não pedi para nascer.
- Eu também não queria que nascesse um porcaria tão grande como você, queria uma coisa melhor. - O doutor Eduardo pegou pesado.
- Pára essa merda de carro que eu vou descer!
- Se não viesse a ter implicações com a justiça eu te jogava agora, não só do carro, mas da minha vida.
- Tudo bem então eu pulo e resolvo teus problemas
- Seria até um favor, mas quero te levar de volta o quanto antes também não quero você por perto.
Repentinamente Eduardo desliga o som do Cd e um silêncio muito grande se faz naquele local, cada um no seu lado estão se remoendo de ódio, com o silêncio quase dá para ouvir os corações em batidas aceleradas.
O carro continua correndo e Eduardo vai se acalmando e pensando o que deve fazer. Levá-lo de volta? Continuar a viagem e tentar reverter a situação? De repente avista um posto de gasolina com restaurante, já está passando a hora do almoço, com a discussão os dois até esqueceram da fome. Eduardo estaciona o carro, abre a porta faz menção de sair e Thiago continua dentro do carro.
- Vamos almoçar? – convida Eduardo, mas o garoto apenas balança a cabeça negativamente. Eduardo vira-se e vai rumo ao restaurante.
Enquanto almoça Eduardo fica olhando o garoto dentro do carro, de repente ele abre a porta e caminha a esmo, Eduardo começa a ficar preocupado. Thiago caminha vagarosamente olhando para o chão, vai jogando os braços para os lados e o gingado do corpo no estilo largadão, próprio do adolescente.
De dentro do restaurante o doutor Eduardo observa a tudo e, mais calmo, começa a refletir:
- Fui muito rude com ele, tudo bem que ele foi agressivo, mas tem seus motivos! Quatro anos sem visitá-lo, sem estar acompanhando seu crescimento, sem orientá-lo, o que poderia esperar? Que ele viesse correndo, me desse um abraço e dissesse papai querido estava com muita saudade do senhor! - Em seguida se dá um puxão de orelha. - É, doutor Eduardo, você é o adulto aqui, você pisou na bola feio, o garoto queria provocá-lo e você correspondeu! Afinal de contas, está recebendo algo que não mereça? - Em seguida ficou apenas contemplando o garoto sentado num banco próximo a uma bomba de gasolina, de cabeça baixa com uma vareta na mão a riscar o chão. Nesse instante o doutor Eduardo começou a lembrar do tempo em que ia jogar bola e levava o garoto, as idas aos parques e ao clube, ele sempre estava junto e, de repente, tudo acaba. Nesse instante uma lágrima escorre pelo seu rosto:
- Doutor Eduardo, Doutor Eduardo, você tem uma parada dura pela frente, mas vai ter que consertar a “caca” que fizeste? - Pensa consigo.
Depois de almoçar pouco, diga-se de passagem, o doutor passa pelo Thiago, dá-lhe um tapa carinhoso no ombro e convida:
- Vamos embora!
Thiago com muita má vontade levanta-se e caminha preguiçosamente. Ao entrar dentro do carro pergunta:
- Vai me levar de volta para casa?
O doutor Eduardo sai com o carro e demora um pouco para responder ao filho:
- Pensei bastante e achei que seria muito cômodo para mim levá-lo de volta. Sua mãe pode achar que eu estou fugindo da responsabilidade!
- Pode ficar tranqüilo, eu limpo sua barra, prefiro isso a continuar nessa furada!
O doutor prefere calar, não quer continuar a agressão, vai continuar com o projeto de conquista:
- Filho, quero pedir desculpas, eu exagerei, me perdoa!
- Pra você é muito fácil pedir desculpas e esperar que eu esqueça tudo e te dê um abraço carinhoso! Como esquecer às vezes que eu sonhei contigo, acordei chorando e chamando teu nome! Quando fiquei doente e achei que fosse morrer, onde você estava? Nas festas pelo dia dos pais pode imaginar o que eu sentia? Imagina as desculpas que dava quando perguntavam pelo meu pai? Sinceramente preferia dizer que ele havia morrido a falar que eu era um rejeitado.
- Mas, filho, eu e sua mãe não tínhamos mais nada em comum, a gente não se entendia e achamos melhor viver separados a viver brigando.
- Nunca pedi que viesse morar com a gente, afinal de contas isso é problemas de vocês, só não precisava me abandonar! O que você acha que eu senti, a gente morou dez anos juntos, de repente, o mundo desaba, você foi embora e nos esquece. Pô cara! Existe ex-esposa, mas não ex-filho, e mais, você sempre deu mais atenção para a filhinha da esposa nova. Eu te odeio e isso não vai passar fácil. - Thiago para de falar, vira para a janela do carro, coloca a cabeça para fora e fica assim, doutor Eduardo percebe que ele está chorando.
- Thiago, eu... – um advogado que sempre teve facilidade com as palavras parece não ter nada pra dizer. - Filho, tudo que eu disser pesará contra mim, por isso só posso dizer – silêncio e, de repente, com voz embargadam diz. - Eu te amo. – Respira fundo e repete – Se você não ouviu repito: eu te amo!
Thiago continua com a cabeça enfiada no vento fora do carro, faz de conta que não ouviu nada. A viagem segue e agora é só o silêncio que reina. Muitos quilômetros depois:
- Posso colocar um dos meus cds? - Thiago fala sem olhar para Eduardo que quase não acredita no que ouviu, ele não o chamou de coroa, nem de velho e o melhor, pediu permissão para colocar um cd.
- Claro filho, claro! Só peço para não colocar muito alto, pode ser?.
- Falou chefia! - Falando assim Thiago colocou o cd.
O doutor Eduardo está muito feliz, sabe que não será fácil o caminho da reconquista, tem consciência que falhou em deixar que o dia-a-dia servisse de desculpas para não acompanhar mais de perto o crescimento físico e moral do filho. Sabe também que as questões mais traumáticas não serão resolvidas como num passe de mágica, mas, fundamentalmente, com tolerância, inteligência e bons exemplos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

DE REPENTE AMOR - PARTE III

TRILOGIA – AMORES E DESAMORES

Mulheres, ah, mulheres! Como são belas e cheirosas, como são macias e dengosas, são complicadas e tão fáceis de serem entendidas, são quentes e são frias, são amáveis e furiosas, são chorosas, como são chorosas! Também são risonhas, e quando riem é como a primavera com suas flores e seu perfume, como um arco-íris após um dia de chuva. A vida ao lado delas pode ser um paraíso ou um inferno, mas sempre será um grande jardim de rosas de todas as cores, com sua beleza, seu perfume... e com seus espinhos.
Eu vivi as mulheres, eu convivi com mulheres, era um apaixonado por mulheres, mas nunca amei nenhuma em especial. Nunca me imaginei abdicando do direito de ter várias mulheres para viver somente ao lado de uma. Nunca vi as mulheres apenas como um objeto sexual, não, as mulheres sempre foram objetos de devoção eu as tratava assim, dava muito carinho, zelo, cuidados, falava o que elas queriam ouvir e elas me devolviam em carícias e tudo o que uma mulher pode oferecer de melhor a um homem. Sempre caprichei em levá-las aos melhores lugares, gastava sem piedade, para mim não era despesa, mas um investimento que valia a pena. Mulheres! Ah, mulheres! Como são apaixonantes.
Sei que fiz diversas sofrerem, mas também sei que muitas receberam tanto amor como nunca haviam recebido e talvez nunca mais receberam, também sou modesto, perceberam!
Eu já estava marcado por ser mulherengo e era até um homem incompreendido, mas sempre elas se arriscavam, pois sempre há mulher que sonha em fisgar um namorador, e, especialmente os solteirões convictos, mas eu resistia, amor nunca fez parte do meu currículo, talvez quando era adolescente havia sentido algo muito forte, mas ela foi embora da cidade e eu sofri, deve ter sido paixão, foi aquela vez e nunca mais. Quando eu saia da vida de uma ou outra mulher sempre me dava uma ponta de tristeza, mas me consolava nos braços de outras.
Nunca fui contra o casamento, somente sou alérgico a ambientes fechados, por isso nunca pensei em me amarrar a uma mulher, amar não fazia parte do meu vocabulário, ouvi de mulheres e amigos que ainda terminaria velho e sozinho, isso não me assustava, quem garante que você envelhecerá ao lado da pessoa que você ama? Ao mesmo tempo não havia sentido a sensação de um grande amor, porque então me unir a uma única mulher! Para enganá-la? Para exibi-la como um patrimônio somente meu? Eu sempre imaginei que um grande amor devia ser cuidado, zelado, acarinhado, e que deve haver por parte dos amantes sempre a preocupação de saber se o outro está feliz, se não, o que um poderia fazer para o outro ser mais feliz, enganá-la nunca, até por nunca ter amado verdadeiramente, amor para mim era algo superior a tudo, por isso nunca me dispus a sentir isso, achava impossível para mim, eu era um potro selvagem que gostava mesmo era de correr pela campinas sentido o vento da liberdade entrando pelas narinas, aceitava até que belas amazonas montassem em mim, mas sem arreio e muito menos cabresto.
Sempre fui de muitos amigos, festas, bebidas, jogos e mulheres. Outra paixão: a noite, adorava a noite e toda a magia que ela oferece.
Já estava com mais de trinta anos, dirigia uma empresa e estava me mudando para outra filial, numa noite resolvi fazer uma despedida com funcionários e familiares, durante a festa uma namorada, que trabalhava na empresa, estava brava comigo por ter descoberto um outro caso, decidiu não ir à festa. Tudo transcorreu maravilhosamente bem, ao final da festa uma das professoras de cursos, veio até a mim e me apresentou sua filha, uma bela garota, notei que era jovenzinha, soube depois que tinha apenas vinte um anos, cara de anjo, merecia uma atenção especial e eu fui galanteador, ela aparentemente aceitou o jogo, e eu solicitei que gostaria de buscá-la na faculdade para conversarmos mais, ela concordou, na noite marcada eu fui, saímos, fomos a um barzinho, ela muito sorridente, boa conversa, na saída dei lhe um beijo inesperado e ela aceitou, a partir daí passamos a nos encontrar, tudo normal para mim, pois continuava com as outras.
Os dias foram passando e ela sempre uma boa companhia para conversas e para rirmos juntos, mas sempre se mostrando muito difícil, não permitia que carícias “calientes”, eu não estava a fim de forçar nenhuma barra, gostaria que tudo acontecesse naturalmente, como sempre foi com as outras.
O tempo foi passando e eu comecei a não entender porque o que funcionava com as outras não funcionava com ela, não deveria ser assim, percebia que ela gostava de estar comigo, mas então porque se apresentava tão difícil, e eu não queria demonstrar que estava desesperado por não entender aquela resistência, comecei a sentir que estava ficando amarrado, queria cada vez mais estar ao lado dela, a presença de outras já não me satisfazia, aquilo era muito estranho para mim, comecei a ficar preocupado, sentia uma angústia a apertar em meu peito, sua presença me enchia de alegria e ao mesmo tempo de desespero, nunca planejei viver aquilo, brincara com fogo que agora me queimava. E como queimava, ela era o motivo das minhas distrações no trabalho, já a levava para a maioria dos eventos, os amigos de bares e festas começaram a estranhar e alguns até a desestimular a continuação daquele namoro. E aos poucos eu fui me afastando das outras, não totalmente, mas já havia reduzido muito, elas estavam percebendo a mudança.
Em uma viagem que estaria acontecendo em grupo ela foi e eu preferi ficar, sozinho me aventurei com outras mulheres e, no retorno ela ficou sabendo, e se deu o fim do relacionamento, a principio doeu, mas eu achei bom, de repente era a oportunidade para tudo voltar ao que era antes, mas não foi o que aconteceu, eu sai a caça de novas mulheres e elas vieram, mas não me faziam esquecê-la, em cada uma na realidade eu procurava ela, não tinha mais dúvida, era o amor. Como foi difícil admitir isso, era como areia movediça, quanto mais eu lutava para sair, mais me afundava, quanto mais eu lutava para esquecê-la, mais sua presença se fixava em meu coração. Quando decidi lutar por aquele amor ela já tinha outro e eu percebi que perdera chance de viver um grande amor, percebi tarde que trocaria todas por apenas ela, coisa que nunca passou pela minha cabeça: ser exclusivo de alguém, agora já aceitava a idéia. Eu estava amando como nunca imaginei, estava gostando até do seu jeito recatado. Percebi que nenhuma outra tinha o seu sorriso, o gosto da sua boca, seu toque, seu perfume, seu calor.
Decidi que ia recuperar aquela oportunidade de amar e busquei, e como busquei, mas ela estava decidida e irredutível, falava que gostava de mim, mas queria alguém que a amasse de verdade e sem ter que dividi-lo com outras, eu disse que estava mudado, mas meu currículo pesava contra mim, quem acreditaria que eu pudesse mudar, eu mesmo tinha minhas dúvidas. Lutei muito, mas ao final decidi que aceitaria sua decisão, eu acho que nem eu daria nova chance a mim. Seguiria minha vida, aquele amor ainda ocupava todo espaço no meu peito, mas eu fui a luta, passei a sair com outras, não tinha mais o mesmo sentimento, já não me achava tão superior em questão de amor, ao contrário era um homem derrotado, passei a ver as mulheres de maneira diferente, passei a brincar menos com os sentimentos delas, tinha a esperança que ainda encontraria um outro amor e dessa vez não deixaria a chance escapar.
Passado quase um ano, aquele amor ainda estava presente em meu coração, já havia me conscientizado que ela fora a vingança de todas que eu fizera sofrer, sentia que as previsões de envelhecer sozinho já era aceitável, ou talvez me unisse a alguém só para ter uma companhia, mas o destino é interessante, nos encontramos num lugar pouco adequado a um encontro romântico: num consultório médico, eu fazendo exames e ela como estagiária, nos olhamos, eu a parei e inventei um assunto, não tive vergonha de confessar que ainda sofria, mas que havia aceitado meu destino, ela me confessou que havia terminado com seu namorado, despedimos com a promessa de nos encontrarmos como bons amigos. Eu não resisti o impulso de buscá-la na faculdade e passamos a conversar como amigos, mas apenas amigos estava sendo muito doido para mim, com ser apenas amigo de uma pessoa que se ama tanto, mas não demorou muito e decidimos que nos daríamos mais uma chance e tudo terminou numa bela noite de casamento.
Os primeiros meses de casados foram de muito sofrimento, estava aprendendo a viver com uma mulher só, era como abandonar um vício, mas estava disposto a cumprir o que havia prometido, não queria perder aquele sentimento tão bom, digo, bom quando se pode ter ao nosso lado a pessoa amada, mas muito ruim quando não a temos, e eu não queria correr riscos.
No dia a dia do casamento aprendi uma grande lição: é muito mais fácil conquistar diversas mulheres do que conquistar a mesma todos os dias, todos os meses, todos os anos. Quando estamos conquistando novos e novos casos, caprichamos, damos o melhor, mas no dia a dia não temos como enganar por um longo tempo, não tem como cansar e se retirar, não podemos apenas encontrar a pessoa sempre cheirosa, bem vestida e preparada para mais um programa especial, mas é o dia a dia com toda a sua beleza e suas durezas.
Hoje sei que fiz a escolha certa, aprendi a viver a realidade, com suas alegrias, suas tristezas, com suas dores e suas fantasias, mas sempre amor.
Hoje noto que sabia muito de mulheres, mas pouco de amor e amor requer atenção, zelo, cuidados e carinhos, é como uma planta, precisa de todo cuidado para crescer bonita e viçosa.

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A Mulher Que Eu Amo - Roberto Carlos